10 memórias sobre o jardim de infância

Certificado Pré-Escola

Ei-lo! Este é o primeiro certificado conquistado – ainda no ano de 1993 – quando tinha meros seis anos de idade. Guardo-o com bastante estima, apesar de remeter meus pensamento a situações cuja minha memória é terrivelmente limitada. A lembrança chega um tanto embaçada, como era de se esperar, pois foram vividas há 23 anos.

Contudo, deixo aqui as dez coisas que lembrei ao rever esse certificado durante minhas organizações.

1 – PRIMEIRO DIA DE ESCOLA 

Foi o primeiro colégio que frequentei na vida; uma escola pública. Chamava-se Centro de Ensino 5, no Guará II (DF), na qual costumava chamar abreviadamente de “centocinco”. Lá, experimentei, pela primeira vez, ficar sozinho sem a presença de nenhum conhecido ao redor. Grandioso dia para mim. Lembro-me bem do momento exato em que minha mãe me entregou pelas mãos a minha primeira professora.

2 – GUARÁ, MEU PRIMEIRO MUNDO

Com seis anos, meu mundo se resumia à vizinhança da QE 34, onde vivia com meus pais e minha irmã em um apartamento situado sob a padaria que havia sido do meu pai.

3 – PRIVILÉGIO DO PÃO NA CESTA

Havia uma janela na cozinha do apartamento que dava acesso à frente da padaria. Se olhássemos para baixo, veríamos a entrada da loja. Conta minha mãe que descíamos uma cesta com a ajuda de uma corda até a frente da loja, e ao subi-la nos deparávamos com delícias para um café-da-manhã ou lanche da tarde.

4 – ELVIS “PRESLEY” ERA MEU VIZINHO

Certa vez, prestava atenção em uma conversa qualquer de meus pais. Notei eles falarem que “Elvis morava pertinho da gente, apenas umas quadras acima”. Meu pai dizia isso apontando através da janela, em direção à outras as casas.  Hoje sei que ele estava me pregando uma peça, e falava fingindo ser possível ver a casa de Elvis da janela da nossa casa. Claro que o Elvis que eles conversavam era um outro qualquer, e não o Presley, pai do rock.

Para não perder a piada, meu pai resolveu sustentar a brincadeira, e por isso vivi um bom tempo acreditando que Elvis Presley teria sido realmente meu vizinho. Cheguei a comentar esse fato com alguns amigos na época. Foi divertido!

5 – A TIA QUE NÃO ERA TIA

No final da nossa rua ficava a escola Centro de Ensino 5. Guardo na memória imagens do primeiro dia de aula, no exato momento em que minha mãe me entregou nas mãos da tia que não era a minha tia. Descobri que todos a chamava de tia, mesmo sem nenhum tipo de parentesco. Apesar de estranho, passei a chamá-la assim.

6 – PRIMEIRA EXPERIÊNCIA ERÓTICA 

Bruna era uma da colega de classe bastante excêntrica. Apresentava-se sempre descabelada e meio desarrumada do resto da turma. Ela devia sofrer de alguma desordem mental, mas me faltava capacidade de chegar a essa conclusão na época.

Mais de uma vez, Bruna decidiu comer o resto de giz da professora nos momentos em que ela se ausentava da sala. Outra vez, Bruna convidou os meninos para uma reunião inusitada embaixo da mesa de leitura dos fundos onde ela nos mostrou suas partes íntimas.

Por curiosidade, ou sei lá o que, participei desse clubinho impróprio. Ao descer para baixo da mesa, constatei que não era blefe. A menina realmente mostrou o que prometido. Por certo receio de ser pego no flagra, ou por sentir que estava fazendo algo de errado — e, de fato, estava — levei um tempo para sair da reunião.

7 – O TRONCO VOADOR

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Em um brinquedo de rodar projetado para comportar quadro passageiros (como mostra a foto acima), um colega teve a péssima ideia colocar um tronco no lugar de uma pessoa, ao lado de outras três crianças. Começamos a girar o brinquedo na mais alta velocidade até o tronco voar na testa de um menino. Pela primeira vez na vida presenciei tanto sangue espalhado. Senti-me péssimo, apesar de não ter sido autor da ideia.

8 – PANCADA NA COSTELA

Correndo durante uma brincadeira de recreio, levei uma queda e bati a costela na quina de um banco de cimento. Vi estrelas. Senti uma tremenda falta de ar e chorei copiosamente. Pobre de mim. Tentei prender o choro por uma espécie de vergonha de fazer aquilo em público em público, mas foi impossível. Professoras vieram me acudir enquanto eu dizia que tudo estava bem na tentativa de não chamar atenção. Em razão do choro, meus olhos ficaram inchados e cheios de água, o que me fez enxergar o mundo ao redor cheio de borrões. Situação estranha, mas enfrentada com sucesso.

9 – ESPINHOS

Colegas gostavam de arrancar do caule das roseiras espinhos para brincar de perfurar outras pessoas. Receoso de participar daquilo, peguei um espinho apenas para levá-lo para casa.

10 – ACHO QUE ENCONTREI A TIA NO FACEBOOK

Dei um Google com o nome da professora que assina o certificado que resultou neste post. Achei uma senhora no Facebook com rosto familiar, apesar de não estar certo de que seja ela. Pensei em colar a foto aqui, mas achei que seria invadir a privacidade de sua imagem. E, também, não sei se ela já morreu ou coisa do tipo.

Ela aparece na foto sorrindo, segurando uma panela de ferro na cozinha, com uma blusa vermelha, ao lado de uma geladeira marrom da Consul.

Enviei uma mensagem e estou aguardando a resposta.

 

Colecionando memórias

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Foto: M. Muniz | Flickr.

Estou de férias e agora tenho tempo para colocar ordem em coisas que estavam soltas em minha vida. Papeis, recortes, certificados antigos, coisas que juntei ao longo de um tempo que são valiosas para mim por ajudarem a contar parte da minha história. Quanto mais antiga, mais gostosa é a memória.

Fui mestre na arte de acumular papeis; andei revendo conceitos e me senti bem com a ideia de mandar para a lata do lixo muita coisa sem utilidade. Hoje, consegui organizar  pilhas de lembranças. Resolvi postar aqui, pouco a pouco, algumas coisas com o objetivo de alimentar meu saudosismo.  Além do mais, gosto da ideia de ter online um pouco desses registros para compartilhar com a família e amigos quando quiser.

Estou certo de que tenho dois leitores neste blog; o contador de acessos não mente. Suponho que seja minha esposa — mulher mais bela do mudo — e minha amada mãe. Para elas,  faço um convite para acompanharem as futuras publicações e me ajudarem a escrever sobre esses lampejos.

Até já.

Era só mais um Silva Que a estrela não brilha. Ele era funkeiro mas era pai de família.

Quem me conhece sabe. Sou fascinado por rock n’ roll: Guns n’ Roses, Bon Jovi, Black Sabbath, Skid Row, The Darkness e outros desse tipo. Mas, isso não me impede de gostar de outros estilos como, MPB, Jazz, Samba… e Funk. Não, pera. Fica esquisito falar que gosto de funk sem antes me explicar. Gosto do funk dos anos de antigamente, anos 90, mais exatamente. Ah, aquilo sim era o bom funk, sem o apelo criminoso e mestiço dos  atuais.

Ao entrar no facebook hoje vi uma postagem de um amigo de colégio, o Iury Santos. Estudamos o primeiro e o segundo ano do ensino médio juntos. O vídeo que ele publicou foi esse logo abaixo. Esse é o legítimo funk.

Esse aí é o Mc Bob Rum. 

O PERSONAGEM LEU MEU BLOG. VAMOS FALAR DE PESSOAS QUE DÃO SAUDADE?

Aconteceu algo muito interessante. Escrevi uma postagem, no ano passado, sobre um antigo professor de locução. Falei sobre ele no blog em razão de suas máximas em sala de aula que me marcaram de uma forma positiva. (Se não leu o que escrevi sobre Franco, leia no link ou não vai entender o texto em azul que segue). Perdemos contato com o final do curso. Pois, para minha felicidade, eis que recebo, nos comentários do blog, a seguinte mensagem:

Olá, Fabrício!

Um amigo ligou para mim e disse: cara, sabia que já te consideram morto?

Como? E ele, indicando um endereço digital, disse vai lá e lê.

E aqui estou, como o Rabugento, nesta Corrida Maluca da vida.

Vivinho e sorrindo – Hi,hi,hi,hi. Hi,hi,hi,hi…

Amigo, fiquei contente em saber que minhas reflexões, de algum modo,

serviram de referência para você. Vida longa, saúde, para você e para mim.

Um forte abraço

Boas Festas,

Feliz Ano Novo.

Franco Vasconcelos.

Fiquei surpreso!!!

Um amigo do professor Vasconcelos chegou até o meu blog através de uma pesquisa feita com o seu nome no Google. Por esse motivo, tive a graça de saber que Franco está vivinho da silva e, pelo visto, com o mesmo bom humor de sempre.

Querido professor, sim. Suas reflexões marcaram a mim outras pessoas que passaram pelo seu caminho, não tenho dúvidas.

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Escrever esse texto me fez lembrar de outro grande amigo. Esse ainda tenho certo contato. Vou citá-lo para ver se a sorte se repete. Quem sabe ele, ou algum amigo, como aconteceu com o ilustre Franco, tenha a sorte de encontrar este blog. Refiro-me ao jornalista Heider Moraes, um profissional das letras sem igual, que me ensinou muita coisa.

Heider é um barracordense, do Maranhão, sabe onde fica? Sua gargalhada é uma marca registrada.

Outro dia, estava em um restaurante abarrotado e, ao fundo, ouvi alguém gargalhar alto e espontâneo, daquelas boas de se ouvir. Saquei na hora: era o Heider.

Encontrei-o em outro restaurante ontem mesmo. Eu chegava para me servir enquanto ele estava prestes a sair. Antes de fazer o meu prato, disse que aprendi umas coisas com ele que levo comigo até hoje, como, por exemplo, sempre pegar o prato abaixo do primeiro na pilha do restaurante. Ele havia argumentado que as pessoas costumam conversar perto deles e a possibilidade de o primeiro da fila conter perdigotos é menor que o segundo. Haha. Como não pensei nisso antes? Mas, aprendi, e sigo este conselho rigorosamente.

Além disso, H é autoridade máxima nos assuntos que tangem o seu estado, o Maranhão. Tomei conhecimento de muitos fatos fascinantes em nossas conversas. Por isso mesmo, quando estive em São Luís e Barreirinhas, pedi conselhos antes de partir. Recomendou-me o bar de um amigo onde ganharíamos uma rodada de cerveja por conta da casa, disse H. Fiquei pouco tempo SL, por isso tive que deixar a gentileza para uma próxima.

Quando voltar ao Maranhão, pretendo ir a Barra do Corda, descer o Rio Corda de boia, para de pouco em pouco à margem e apreciar o Maranhão.

How many sugar, sir.

Estive este mês nos Estados Unidos. Não foi uma viagem planejada. Recebi o convite segunda-feira e deveria estar em Washington D.C na semana seguinte. Restavam-me pouquíssimos dias para estar com tudo organizado, inclusive com o bendito visto. Por não ouvir os conselhos de minha estimada noiva, eu ainda não tinha a autorização para adentrar no país. No entanto, com um pouco de adrenalina, consegui o visto em oito dias.

Nos Estados Unidos, vivi nove dias intensos de reuniões e conversas em inglês. A princípio, imaginei que seria uma tarefa fácil para mim, pois eu havia estudado em boas escolas de inglês e por iniciativa própria, com filmes, musicas e livros.

Percebi que existe uma enorme diferença entre estudar inglês e viver o idioma ao vivo, no dia a dia. Meus estudos me deram capacidade de responder corretamente um e-mail em inglês com facilidade, porém, falar é algo completamente diferente. Quando escrevemos, temos tempo para pensar, analisar o que queremos comunicar, escolher palavras. Não existe esse mesmo prazo quando estamos falando. Ao sermos indagados sobre qualquer assunto, a resposta precisa ser imediata. Essa é a grande diferença.

Outra barreira é com relação à velocidade que vão falar com você. Isso aconteceu comigo em um voo de Atlanta para Washington: a aeromoça me fez uma pergunta absurdamente simples e a única coisa que respondi rapidamente foi: Hãm? (vergonha). Eu não tive a capacidade de compreender a ingênua frase “how many sugar” porque ela soou aos meus ouvidos com o som de “Raminy sugar”. What a f…ck is Raminy???

O saldo da viagem foi excelente, embora, retornei ao Brasil com a missão de melhorar o aspecto de minha compreensão e fala. Captar algumas frases em filmes e músicas não é o bastante para garantir uma boa impressão e desempenho numa situação onde o dialogo acontece ao vivo, quando o diálogo depende de sua intervenção.

Eu já havia sido advertido sobre isso, mas a experiência me fez entender melhor o conselho. Acomodar-se com o “inglesinho” básico não me rendeu uma desenvoltura de impacto conforme pretendia. Por este motivo, estou ávido em ouvir e falar o inglês cada vez melhor. A dica do vídeo abaixo é muito boa.

O que aprendi com o velho Vasconcelos

Franco era, ou ainda é, não sei se está vivo, um senhor atarracado de meia idade, barrigudo, com cabelos abundantes nas laterais da cabeça e mandíbula notadamente projetada para fora do rosto, à frente do nariz. Em todas as vezes que nos encontrávamos era impossível não lembrar do Rabugento, o cão-detetive da Corrida Maluca.

Franco era professor, e em suas aulas tinha o costume de declamar frases de efeito na tentativa de livrar seus alunos de situações ruins na vida. Rememorando, consigo até  ouvi-lo: existem três coisas que não se empresta nunca: dinheiro, carro e mulher. Muito jovem e com a vida profissional recém iniciada, as coisas que ele recomendou não emprestar eram exatamente as que eu não tinha: nem dinheiro, nem carro e nem mulher. São conselhos que realmente de considerar e levar comigo.

Minha estimada avó, a dona Efigênia Felicidade dos Santos, é outra de conselhos valiosos. No alto dos seus bem vividos 74 anos, ainda ouço-a dizer: carro é como escova de dente, cada um tem o seu, dando sentido de que a gente não empresta a escova a qualquer um, e o mesmo deveria acontecer com o carro. Seguindo esse raciocínio, tenho certeza que ela evitou apuros.

O Franco foi meu professor de locução. Com ele, ouvi preciosidades a respeito de organização pessoal e de como devemos usar nosso tempo em prol de nós mesmos. Ele afirmava, veementemente, que temos tempo para fazer tudo, absolutamente tudo o que quiséssemos. É ingênuo quem se torna refém de seus imbróglios, enrolando-se em suas próprias confusões, falta de foco e objetivo pouco claro.

Era algo dessa natureza que ouvíamos quando alguém se desculpava por não apresentar algum trabalho durante o curso. Nunca diga que não teve tempo para algo, pois o tempo pode sobrar quando sabemos organizá-lo. O que falta é o senso de organização, dedicação e compromisso com a causa. Então, não dê desculpas por falta de tempo, assuma a sua desorganização.

O mais impressionante. A desorganização mental é refletida no dia a dia e nas coisas do indivíduo. E o desorganizado não percebe isso. Lembro de um amigo de infância, cujo nome vou preservar para não causar nenhum incômodo, que tinha a cabeça tão desorganizada quanto as coisas que estava ao seu entorno. Por exemplo, o quarto, o caderno, a mochila, a letra, os livros e outras coisas dele eram desorganizadas. A coisa refletia em quase tudo que ele fazia.

Os objetivos precisam de clareza, e Franco era enfático. Com razão? Não importa! A busca aqui é por algo mais profundo do que a razão, que neste caso, pode ser encontrada no entendimento de uma vida mais prática e menos procrastinatória.

Tudo isso requer um plano de trabalho dedicado, realizado um pouquinho todos os dias! Essa parece ser a formula das pessoas de grande sucesso na vida, que conseguem obter êxitos reais.

Precisamos readaptar nossa filosofia para diminuir as desculpas e potencializar as ações, a atitude e a dedicação com o que queremos realmente. Uma coisa  puxará a outra. Quando estivemos mais dedicados, teremos mais energia para seguir um ritmo progressivo, uma vez que a recompensa é estimulante: os resultados positivos.

O velho Franco Vasconcelos foi uma pessoa importante que passou pelo meu caminho. Nesta noite, sua orelha deve ter ficado vermelha com tanto falatório sobre a sua pessoa. Foi uma passagem rápida, porém marcante. Captei suas ideias por serem úteis e perenes, sem prazo de validade.

Então é isso, pessoal.

Não morro de saudade de quase ter morrido

Acreditei que o post de ontem seria o último da minha vida, uma vez que quase morri no anoitecer dessa terça-feira, ou pelo menos achei isso fosse acontecer. Depois da meia noite comecei a tremer feito um troço, sofri com taquicardia e minha pressão ficou meio maluca. Na minha cabeça, comecei a despedir do meu corpo e de tudo mais de material. Foi o início do meu desprendimento. Só fiquei meio frustrado porque achei que iria morrer de um jeito mais interessante.

Graças aos anjos da madrugada – minha noiva e minha genetriz – eu sobrevivi, porque me levaram rápido a um pronto-socorro. Foi lá onde tomei uma das drogas mais simpáticas do mundo. Fiquei deslumbrado. Trata-se do tal Dramin, que nunca havia tomado. Os efeitos sedativos desse remédio é uma maravilha. Acredito que ele foi um dos principais responsáveis pelo restabelecimento do meu bem-estar, que se alterou em razão de um estresse. Após uns 30 minutos, ou sei lá quanto tempo injetando aquele troço na veia, fiquei um profundo relaxado e dormir feito uma pedra.

Eu sei que o médico que me atendeu não lê esse blog, infelizmente. Mas, mesmo assim, quero deixar um agradecimento a ele. O goiano, carregado no sotaque, foi gente boa demais e conseguiu administrar meu problema com maestria. O Dr. Daniel Vieira, (CRM-GO 16.673 e CRM-DF 20.110) foi um dos médicos mais atenciosos que vi nos últimos anos de vida. Valeu, Dr.

Gente que pede dinheiro emprestado

Prometi a mim mesmo que não emprestaria mais dinheiro para ninguém, salvo para a família e um ou outro caso de amigos próximos, dependendo da situação, lógico. Pois, já neste ano consegui dizer alguns nãos para pessoas que acham que colho cédulas em meu lindo pomar. Criei uma frase que serve para escapar do pedinte chato. Ensaiei para não ser pego de surpresa. O esquema é falar mais ou menos assim: “veja que situação engraçada, meu caro (dando umas risadinhas), eu ia te pedir um trocado emprestado também, mas estava meio envergonhado em fazer isso. É! Parece que ‘a coisa’ está mesmo difícil para todo mundo, né?” Depois dessa, para não ficar no clima ruim, sem assunto, a tática é levar o tema para as mazelas do governo, da inflação, da corrupção e tal. As pessoas acabam incomodadas e tão logo dão um jeito de se despedir.

Mas hoje eu falhei na meta e dei um trocado. Uma moça da limpeza do meu trabalho, que passa de hora em hora recolhendo as coisas que coloco no lixo da minha sala, me pediu uma ajuda para arrancar um dente que prejudica a aparência dela. Na verdade, ela pediu essa ajuda há dois dias, e eu disse que não tinha nenhum dinheiro sacado e tal… para a gente ver aquilo depois. Nos últimos dois dias ela veio à minha mesa e, sem nenhum desconforto, tocou no assunto. Eu tentei fugir e repeti o mesmo discurso de outrora: não tenho agora… Etc. e tal.

Ela tem um dentre para fora da boca, e isso a impede de fechar completamente os lábios.  A ajuda financeira seria no sentido de contribuir para por ordem naquela situação.  Para acabar com aquilo, dei a ela R$ 27.

Fico pensando que as pessoas se sentem dispostas em me pedir dinheiro por eu ser um pouco receptivo com elas. Aquela coisa de dar bom dia, dizer olá… No entanto, a saída talvez seja usar um pouco da tática do senhor Rose (clique no link para ver a cara) e fazer aquela cara pálida e neutra para os outros. Vou tentar!

Nos tempos do colégio…

Existe um monte de coisas do meu passado que me provocam o sentimento de saudade. Hoje mesmo estava lembrando a minha rotina nos tempos da oitava série, quando estudava no colégio Juscelino Kubitschek. Meu pai buscava minha irmã e eu com uma caminhonete vermelha meio antiga. Para ser sincero, eu tinha um pouco de vergonha daquela caminhonete. Não que eu quisesse que ele rodasse por aí com uma BMW branca novinha, igual de um professor de geografia que eu tinha. Nada disso! A questão é que ela fazia um barulho ensurdecedor e soltava uma fumaça meio preta pelo escapamento. Eu sempre gostei de ser discreto com as minhas cosias, não gostava de chegar aos lugares chamando atenção demais, com todo mundo olhando eu pegar minha mochila na carroceria e tal. Chamar atenção é o tipo de coisa que considero desnecessário.

Foi impossível apenas não ser reparado quando quebrei a perna e tive que chegar de gesso e muletas, mas prefiro nem lembrar esse dia.

Esse professor que citei era meio bon vivant, no sentido de ser ligado a essas coisas de quem gosta de viver bem. Ele gostava de interromper a aula para contar suas experiências de viagens nos Estados Unidos com sua esposa. Ele usava uma corrente de ouro no braço e, de vez em quando, enquanto falava para a turma, sacudia o pulso para arrumar a posição dela. Alguns que assistiam aquilo achavam que ele era meio metido, mas eu nunca cheguei a pensar isso! Era um professor jovem e bem aparentado. Lembro até hoje do seu nome: Júlio César.

Meu pai costumava atrasar para nos buscar porque sempre estava resolvendo alguma coisa. E, convenhamos, para a gente que estudou, a parte da manhã parecia durar umas quinhentas horas. Para quem trabalha, esse período passa bem rápido. Acho que era por isso que ele demorava a chegar. Enquanto isso, eu e minha irmã ficávamos do lado de fora sentados no meio fio ou em algum lugar mais alto perto do comércio. Muitas vezes eu ficava pensando no suco de maracujá que minha mãe deveria ter feito para o almoço, ou observando as árvores verdinhas e o céu azul que sempre tinha naquela época. As condições daquele tempo fazia eu me sentir bem disposto. Não me dava preguiça de fazer nada, muito diferente de hoje.

Eu gostava demais de sucos de todas as variedades; na verdade ainda gosto, mas com a vida de adulto passei a dividir essa preferência por vinho, cerveja e uísque. Não que eu tome álcool no almoço, pois isso acontece só de vez em quando, nos finais de semana, e quando estou afim. Para falar a verdade, eu não gosto mais de beber nada enquanto almoço, se faço isso é bem provável que eu passe mal o resto do dia.

Sobre o tempo do colégio, é impossível não tentar imaginar como devem estar algumas pessoas que a gente sempre via. Lembro-me de pessoas que eu nunca falei na vida, mas sempre cruzava com eles pelo pátio. Tenho a imagem de alguns rostos ainda muito nítidos, um deles é de um menino que se chamava Glauber. Ele namorava uma daquelas meninas mais populares do colégio, por isso se achava um cara melhor do que os outros. Eu me lembro de que as pessoas falavam que o casal tinha umas brigas daquelas ferozes e a moça ficava longe dele nos intervalos as vezes.  Acho que a imagem do Glauber ficou gravada na minha memória  porque ele tinha as maças do rosto muito vermelhas, parece que era uma espécie de doença de pele. Além disso, ele usava um corte de cabelo que deixava mais volume de cabelo encima da testa. O pessoal chamava aquela moita de alcinha de boquete. Era um meio de sacanear esse tipo de gente.

É engraçado como a nossa percepção do mundo é diferente quando a gente vive somente nessa vida de ir e voltar do colégio; tudo é um diferente quando a gente vai amadurecendo, e deve ser assim com a velhice também. 

Estou em uma missão: assistir todos os filmes protagonizados por Johnny Depp. São aproximadamente 57 filmes, fora participações especiais e programas de TV. Resolvi fazê-lo primeiramente por simpatizar com o trabalho do lunático diretor Tim Burton, que tem uma longa parceria de filmes exóticos com o ator; segundo por gostar da característica que Depp imprime em seus personagens. Contudo, o que me chamou a atenção em um deles foi a atuação de um coadjuvante. Em Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador, de 1993, Leonardo Dicaprio, aparece com seus 19 anos interpretando um jovem com autismo. (E que interpretação barbara.) O trabalho rendeu ao ator o Oscar de melhor coadjuvante a época.

Não descobri que era Dicaprio quem dava vida ao personagem autista Arnie Grape até o filme acabar; provavelmente por ter guardado a imagem do ator apenas a partir de Titanic. O filme é triste e de roteiro simples, o que não significa algo ruim. O diretor sueco Lasse Hallström conseguiu conduzir o drama com sutileza, sem a necessidade apelar em nenhum momento para o extremo. Por isso o filme passa de forma serena e com alguns planos longos.

O resultado final obtido por mim serviu para colocar Dicaprio em uma consideração mais elevada no meu ranking de atores prediletos, além de me sensibilizar com a história de união, dedicação e superação da família Grape.

Vale a pena conferir o filme na integra e, aqui, os melhores momento de Arnie.